Da Massa à Goma

Marco Nalesso | Amerê Coletivo

Escovas da família Massa

Sim, esta foi a melhor imagem que encontrei do Massa Coletiva. Minha escova está ali no meio e foi um prazer passar pouco mais de um dia com esse grupo que acaba de ser apontado como autor de uma das melhores experiências de centro cultural e moradia coletiva do país.
Impressiona a maturidade da união que existe entre eles, a profundidade na qual se fundem em suas reflexões e direcionamentos.

Preparando a saída no Massa

Cheguei em São Carlos um dia antes da saída marcada com o pessoal do Aeromoças e Tenistas Russas para a tour. Queria absorver uma pequena dose da experiência deles antes de partir para a minha experiência de 12 dias na estrada com duas bandas. O pessoal estava agitado com a preparação do evento de lançamento do ponto de Cultura do Massa. Antes do almoço repassar o check list. Depois do jantar, preparar a casa/sede para receber em torno de 70 convidados. Entre eles, Pablo Capilé e Célio Turino, que viaja lançando seu livro sobre os Pontos de Cultura.
Virar Ponto de Cultura é o maior prêmio que o grupo já recebeu e foi com aquela dorzinha de perder a festa que partimos para Uberlândia, direto para o show com o Porcas Borboletas.

Entrando na van

Os primeiros 276 kilômetros, as primeiras três horas na van com o motorista Ednaldo, que prefere parar a deixar alguém fumar na janela. Em um posto em Orlândia, cigarro, banheiro, pão com mortadela, café, tampico, cerveja, bala chita.

Primeira parada

Primeira parada

Será que vão caber todos e, principalmente, tudo?
O Jack do Porcas tem duas congas gigantes.
O teclado deles é enorme.
Pois é.
Qual DVD assistir, Will Smith?
Não.
Val Kilmer, Pacino e Deniro, policiais e bandidos?
Opa!
Muito tiro, difícil escrever enquanto o filme passa.
Inclusive, Al Pacino certamente merece um adendo. O cara interpretou os melhores crápulas da história do cinema. Mesmo quando a quadrilha dele se dava mal, como em Um Dia de Cão, valia a pena ouvir duas horas da melhor gritaria de hollywood. Porém, em algum ponto de sua carreira, talvez depois de matarem a filha de seu personagem em O Poderoso Chefão 3, o cara se converteu. Entre uma ou outra recaída em que interpreta o capeta em pessoa aqui,  outro chefe da máfia ali, Pacino tem se dedicado na maioria das vezes ao papel de mocinho, policial e sei lá o que mais que se inclui nesse lado da maniqueísta cultura norteamericana. Fica aqui um protesto.

Primeiro entardecer na estrada

Hard no Sax

Hoolis dos teclados!

Zero horas e quarenta e o sax dos Aeromoças faz as garotas de Uberlândia dançarem com sensualidade – algumas para os amigos, com deboche, outras mais seriamente. Outra música começa e o teclado pergunta a todos: em que década, ou melhor, em que planeta estamos mesmo?

A transmissão ao vivo pela internet parece mesmo não ter sido inventada para dar certo sempre. Quando o equipamento está todo ok, a conexão não ajuda, ou vice-versa. Trabalhei com isso o ano passado todo e meu lema sempre foi: todo dia é uma aventura.

Aliás, sensacional a casa do Goma. Grafites irados pra todos os lados, grafites que se misturam com instalações muito legais, bar, café, lojinha de dia e balada de noite… Quem nunca quis ter sua própria casa de shows? Eles quiserem e conseguiram. Talles explica que foram fazendo empréstimos e adaptando o lugar, que no começo era só um corredor. Construiram banheiros, bar, camarim, pintaram tudo eles mesmos.
Aliás é preciso dizer que Uberlândia é uma cidade linda. Aliás as meninas de Uberaba são lindas. Aliás o sax está fazendo elas dançarem outra vez…

Juliano Parreira

O show do Aeromoças e Tenistas Russas mostrou que a banda têm muitas caminhos a escolher, minhas portas sonoras a explorar. Difícil listar as vertentes percorridas durante a apresentação, mas é fácil concordar que eles mandam bem em todas.

Jack, o Percussionista Louco

Quando começa o show do Porcas Borboletas me vem de repente algo que Talles me disse a última vez que me pegou extasiado com o show deles: “Você precisa vê-los tocando no Goma”. Difícil falar muito mas vamos lá. Deve ser algo como o Santos na Vila Belmira. É a única comparação que consigo fazer com esses doidos mais soltos do que nunca e o público indo junto down the rabbit hole, dançando como se ninguém estivesse olhando, curtindo os pedaços de tinta seca que voam da lata que Jack, o percussionista louco, destrói. É o produtor que canta uma música com a banda e quebra um pedestal e quase a minha câmera junto. É o pai de um dos garotos do coletivo que não se aguenta e invade o palco para dançar. São as garotas lindas que fazem uma rodinha e cantam mais alto que todo mundo. É o fotógrafo do coletivo entrosado com tudo isso. Esse grupo de letrinhas aqui definitivamente não tem graça nenhuma. Quem não foi, perdeu.

Nós, os estranjeiros, dormimos na casa de Enzo Banzo, poeta, vocal, violão, planejamento institucional e corres diversos do Porcas Borboletas. Foda demais conhecer em carne osso a galera do Goma, transformar avatares em pessoas, sacar o clima do escritório deles, como eles se dividem, sentir um pouco o que eles sentem quando abrem a casa de shows, quando param pra pensar nas dívidas. Respirar um pouco do ar de Minas, um misto da tranquilidade da galera pelas ruas e do cheiro da comida da Mãe do Banzo, é foda também. Claro que quase não deu tempo de tirar a foto abaixo.

Comida muito boa da Dona Cleuza

Descobri ainda que a cozinheira também é poeta. Abro seu livro “Djanira na Janela” ao acaso e o primeiro poema que vêm é ótimo. Você, leitor, acaba de ganhar ele de presente:

Redemoinho

O vento
levanta
as folhas
do chão

tão secas
tão leves
as folhas
caídas
não tem
mais vida
mas podem
voar

Agora bora pra estrada. Os próximos 110 km vão nos levar até Uberaba, com boas expetativas para o show que faz parte da comemoração do aniversário da cidade, em um teatro com capacidade para 1200 pessoas. Na saída de Uberlândia, uma despedida: duas garotas em uma moto dão uma dançadinha aleatória. Nem sabem o que causaram em uma van que estava parada ao lado, repleta de 15 marmanjos.

Anúncios

4 Respostas para “Da Massa à Goma

  1. lindo texto, marquito

    (vc está diante de mim mergulhado na sua tela, e nem sabe q eu estou te olhando)

    lindo seu texto. uma free mind em ação

    bora continuar viajando

    vou ler diariamente suas coberturas pra ver se consigo entender essa vida

    bjão, vou te pagar um picolé.

  2. Concordo com o Dani, muito bacana de ler esse texto, Marco. Apesar de curto, foi maravilhoso o contato com o pessoal do Massa e Goma, quando passamos la com a MIni Box.
    Danislau, bem que tu poderia escrever também, né nao? rs

    parabéns, abs!

  3. perdi em berlândia…
    mas ganhe em franca!

    foi extasiante ver o porcas: o chelo, amigo de curta data mas de longa sintonia mandando brasa na cozinha; o danislouco e suas acrobacias poéticas; a concentração impecável do moita; as intervenções alucinóginas do ricardim; jack, sem palavras – phoda!; banzo e sua sinceridade tocante; e o vi, implacável!

    qto aos ou as tenistas, me vi colocando a cabeça pra dentro da casa para ver de onde vinha a rouquidão do sax e um swing torto! pena q tive q saltar de banda sem ver e ouvir a apresentação… espero vê-los na integra. mas a sintonia está no ar

    muito gás nos próximos shows!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s