Campinas

A abstinência começa a bater dentro da van. Sabe quando tem uma galera com fome e o papo acaba voltando pro assunto “rango”o tempo todo? Então… Acabo de ouvir uma descrição detalhada de uma garota surfista que acendeu o coração do Danislau: a suavidade, o som da prancha deslisando sobre a água em um fim de tarde… Os passageiros da van rapidamente elencaram os fatores que fazem com que toda mulher surfando seja gostosa pra caralho: a menina remando de bruços, o bumbum molhado de mar…

Porém, como apontou Danislau a questão é que nós – repito: 15 marmanjos que somos – deterioramos qualquer lugar em que chegamos. Estragamos o equilíbrio homem/mulher de qualquer espaço, ou seja, somos o nosso próprio boicote. O jeito que encontramos por enquanto é apelar para a “representação”: alguém que tenha sucesso na noite deixa todos felizes. Considerar os números absolutos seria crueldade.

Bem, chegamos ao distrito de Barão Geraldo em Campinas. Mais um território universitário, aqui habitado pelos alunos da UNICAMP, que dão uma renovada nos ares da cidade. Foi na frente da moradia   universitária, em um trailer, que começou o bar do Zé. Quando a calçada ficou pequena, o bar foi tranferido para uma casa. Contrariando vizinhos, os caras continuaram cultivando o público que gostava de música underground. Eu me lembro de ter passado por lá uma vez há cerca de dez anos e ter ficado impressionado com o boteco sujo que misturava rock do leste europeu com techno.

Hoje em dia os caras estão ai com uma casa foda, toda decorada com pop arte, com isolamento acústico ok e cartazes que anunciam a passagem de Copacabana Club e Agent Orange por lá. Foi muito foda a oportunidade de conversar com o Diego México, produtor da casa que trabalha lá desde a época do trailer, que contou toda essa história. A visão dele de música independente e a história que eles já tem pra contar são respeitáveis.

Crédito para articulação feita pelo Coletivo Ajuntaê. O pessoal está iniciando seus trabalhos com força total e promete. O perfil deles é muito bacana, e Campinas demanda muito o trabalho deles como agentes da cultura independente.

Quando chegamos na casa tivemos a chance de aproveitar a pechincha da promoção de happy hour: chop Heineken bem tirado por dois reais e cinqüenta. Se eu morasse em campinas não perderia. Mas vamos lá, a noite começa e The Baggios mostram mais uma vez seu som áspero.

O efeito no público resgata o mais primordial significado de “rock and rol”: numa tradução livre, quebrar tudo de uma maneira que denote sex appeal. Na década de 50 várias músicas já mencionavam o termo, mas foi só então que o radialista Alan Freed empregou-o para denominar um estilo. Ironicamente Freed enfrentou um escândalo por aceitar propina por favorecer certas músicas na programação. Ou seja, o mesmo cara que cunhou o rótulo rock’n’roll também inventou o jabá.

As quartas-feiras geralmente não possuem programação nO Bar do Zé, e por isso desde o momento em que os Baggios subiram ao palco o público começou a surpreender. Bastante gente, e gente empolgada. Estavam interessados mesmo era no som ao vivo, e a cada intervalo entre as bandas desapareciam da pista para o bar.

Durante o show do Porcas o show do público teve seu ápice: uma galera gritando as letras, exigindo que certas músicas fossem tocadas! Vale aqui destacar a função de formação de público que tem uma turnê. Apesar de ter ocorrido diversas vezes comigo de tentar sacar o barato do som de alguém e não conseguir até assistir ao vivo, só tive o estalo desta vez depois do que rolou nessa noite.

Vivemos na era da difusão da comunicação, na qual os mais céticos dizem que vai faltar público para a maioria dos projetos porque a maioria das pessoas não quer ser público, ou melhor, não quer ceder, mas só ganhar atenção – é a teoria da calda longa. Uma estratégia acertada para nossa época então é partir para o tête-à-tiete, usar o calor do palco para vencer a superficialidade com que tomamos contato com as coisas no nosso mundo poluído. É o que muito bem estão fazendo os Aeromoças e Tenistas Russas, que não economizam boa música em cada palco dessa tour. Seguraram até bem tarde, como terceira banda da noite de uma quarta. Força, galera!

Anúncios

Uma resposta para “Campinas

  1. A noite foi incrível!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s